Desejo X Vontade

O que caracteriza um desejo? Desejar algo, é o mesmo que ter vontade? Segundo Kant, desejo e vontade diferem pelo fato da vontade ser racional e controlada, ao contrário do desejo, esse incontrolável…

O Palestrante e Professor de ética da USP Clóvis de Barros Filho exemplifica bem em uma de suas palestras, suas palavras baseadas na obra de Kant:

“Desejo é tudo o que emerge do pensamento à ação sem que se possa controlar. Vontade é a ação regida pela razão, independentemente da corrente dos desejos; é o uso da razão para deliberar escolhas. Muito diferente de desejo, vontade é o saber materializado em conduta; é tudo o que o pensamento produz para se sobrepor aos instintos, e assim, viver melhor.

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A fronteira da vida boa e da vida ruim está no descolamento entre a racionalidade e o impulso desejante, ou seja, entre a vontade e o desejo.

A vontade percebe que, apesar do desejo, é possível viver na contramão dos instintos. Liberdade é a soberania da competência deliberativa do homem sobre suas próprias inclinações. Sou livre quando, ao flagrar meus desejos, consigo agir pela razão, contrariando o que sugerem meus impulsos instintivos.”

Me pergunto, se a vida boa está atrelada a “descolarmos” o desejo da vontade, a racionalidade do impulso, qual a função do desejo em nossas vidas?

Será o desejo uma espécie de vilão que vem nos atentar para que enfiemos os pés pelas mãos e venhamos a colocar em risco nossa segurança? Ou talvez a vontade seja a castradora de tudo aquilo que almejamos cegamente, para saciar instintos que mal sabemos explicar?

E que escolha devemos fazer, a segurança e conformismo da vontade, ou a entrega sem limites pelo desejo?

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Morar na praia ou no campo? Na metrópole ou no interior? Casar ou ser solteiro?

Muitos tem vontades que contrariam seus desejos, ou vice-versa… Como lidar com essa dicotomia de impulsos, sendo que a todo instante tomamos decisões que regem nosso destino como um Efeito Borboleta da Teoria do Caos?

Não tenho, nem terei todas as respostas para perguntas como essa, o que sei e funciona segundo a minha perspectiva é justamente adquirirmos o hábito de observar  novos pontos de vista.

Como? Em algumas técnicas de Programação Neurolinguística nos colocamos como segunda, ou até terceira pessoa em uma determinada situação para ter um novo olhar. Por exemplo, posso sair do meu “eu” e me tornar um observador da situação em que estou inserido, deixo de ser o sujeito e passo a observador do sujeito. Mais ainda, posso deixar de ser o observador do sujeito, me colocar em uma terceira posição e observar como o observador está a observar o sujeito. Doido isso não?

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Dessa forma temos perspectivas maiores de situações que quando inseridos, não percebemos tão bem. Posso, ao olhar de fora, perceber se o que devo satisfazer em determinado momento é meu desejo ou minha vontade, ou talvez nenhum… Ou ambos…

Analisar baseado em experiências minhas ou de terceiros, e que resultados foram obtidos dependendo da escolha feita.

Estratégia é seguir um método ou plano de um modelo que obteve sucesso, e é disso que falo. Essa semana assisti um filme onde durante uma palestra é dado o exemplo de uma imagem confusa, distorcida, que parecia um cérebro ou algo do tipo. Ninguém acertou o que seria. A partir do momento em que o zoom foi retirado, apareceu uma noz, e a mensagem foi a seguinte: “Se estivermos dentro do problema ou situação, fica mais difícil de ver nitidamente”.

Isso faz sentido pra você? Quantas vezes estamos na primeira posição, com a visão turva e optamos pelo desejo imediato, colocando toda uma estratégia em cheque perante um olhar desfocado?

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A proposta é que façamos o exercício de ter outras perspectivas, ver de cima, uma visão macro, para aí sim tomar as decisões…

Fica a pergunta, será que somos capazes?